A SOMBRA QUE CHAMAMOS DE BONDADE NAS MULHERES
Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista | Instituto AELLA
Há mulheres que atravessam a vida acreditando que a bondade é uma proteção. Que ser compreensiva, paciente e disponível cria uma espécie de escudo moral contra o mal. Não cria. Cria, no máximo, um ponto cego.
A maior parte das feridas não nasce do que é abertamente violento, mas do que se instala no invisível: o não dito, o tolerado, o “não foi tão grave assim”. O problema do invisível não é a sua ausência, mas o fato de que ele governa sem ser questionado.
Chamamos de amor o que é medo de perder. Chamamos de empatia o que é incapacidade de sustentar conflito. Chamamos de bondade o que muitas vezes é simples recusa de enxergar.
O mal raramente chega com aparência monstruosa. Ele se apresenta educado, razoável, às vezes até frágil. E prospera sobretudo onde encontra ingenuidade moral — aquela certeza confortável de que, se a intenção foi boa, já estamos do lado certo.
O problema não é apenas o mal deliberado. Esse é mais fácil de reconhecer. O mais perigoso é o mal que não se assume como tal: o que nasce da ingenuidade, da omissão, da falsa bondade. Ele não precisa de intenção para operar — basta inconsciência suficiente para deixá-lo agir.
Existe uma crença tranquilizadora de que, se não houve má intenção, não houve dano real. Isso é falso. O mal existe independentemente da intenção. É concreto, discernível e produz efeitos. Fingir que ele não existe não o dissolve; ao contrário, o fortalece. Onde não há vigilância ética, ele se organiza sozinho.
Pessoas com pouca consciência de si, ética frágil ou covardia espiritual liberam forças destrutivas sem perceber. Não por crueldade explícita, mas por incapacidade de sustentar responsabilidade. O bem que deixamos de fazer — por medo, conveniência ou acomodação — não desaparece. Ele se soma, silenciosamente, ao mal que já circula.
Existe uma sombra ativa nas relações humanas. Ela se manifesta no corpo antes de ser formulada pela razão: um incômodo persistente, uma exaustão sem causa clara, um ressentimento que cresce em silêncio. Ignorá-la não é virtude espiritual. É colaboração involuntária.
O invisível é o território onde essas forças se escondem. E tudo o que é ignorado nesse território não permanece neutro. O que não é visto, sentido e nomeado retorna como destino — voltando-se contra nós mesmas.
Só quando uma mulher aceita olhar para esse território sem maquiagem, em si e nos outros, ela deixa de ser governada pelo invisível. E só então pode escolher o bem não por ingenuidade, mas por consciência.
