ANTES DA PALAVRA, A DANÇA

Sobre o que une — porque a razão não basta

 

Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista | Instituto AELLA

adrianatns@icloud.com e @CleoAdriana

 

Falamos demais sobre amor, relação, masculino e feminino. Analisamos, conceituamos, debatemos. E, ainda assim, tropeçamos nos mesmos desencontros. Talvez porque o que realmente une não se resolva na palavra. Talvez porque algo precise acontecer antes — no corpo, na presença, no silêncio.

 

Havia uma vez um homem que penava, ofegante, para ser o super-homem que diziam que ele precisava ser. Por onde andava, carregava essa máscara — pesada, apertada, sufocante — até o dia em que se deu conta do cansaço absurdo de sustentar um herói que ele simplesmente não era. Era como levar consigo um enorme boneco inflável de si mesmo: vistoso por fora, oco por dentro.

O que exatamente significa “ser o super-homem” varia conforme o ambiente, a criação, os vínculos afetivos, o círculo social — que nem sempre é tão amigo quanto parece — e, para completar, as marcas inconscientes que cada homem carrega desde o nascimento. Apesar das diferenças, persiste uma exigência performativa que empurra o homem para um papel opressor. Ninguém deveria precisar do “super” para simplesmente existir.

Assim, muitos homens passaram a viver em permanente estado de superação forçada, tentando provar para si e para o mundo que eram fortes, poderosos, invulneráveis. O modelo mais comum desse super-homem é conhecido: o forte que facilmente vira prepotente; o líder que desliza para a tirania; o comandante que se perde na brutalidade; a autoconfiança que rapidamente se converte em ignorância e estupidez grosseira. Presos nessa armadilha, os homens erram — e erram muito.

Do outro lado da gangorra estão as mulheres. Ofegantes também, mas por outro motivo: almejam a conquista de um novo lugar no mundo, carregando novos valores, novas exigências e um conflito interno permanente — entre se entregar à relação ou recuar dela, entre amar e se proteger. Elas trazem no corpo e na memória as marcas da violência do passado. Algo se quebrou ali. A confiança em si e nos homens, como um vaso de cristal, espatifou-se no chão. E os cacos ficaram com elas. O que fazer com isso?

Enquanto isso, muitos homens, desejando ser sérios, dignos e socialmente úteis, sentem-se patetas. Intuem que lhes faltam bases sólidas para sustentar essa dignidade. Não querem ser brutos, mas já não conseguem ser super-homens. Tampouco sabem calçar os sapatos de um homem inteiro, pois se percebem presos a gestos vazios — como quem abana a própria cauda em busca de aprovação.

Na tentativa de fazer a relação funcionar, homens e mulheres — sobretudo as mulheres — apostam na conversa. Estimulam o diálogo, a discussão, a fala interminável. Afinal, “o casal precisa conversar”. Os assuntos precisam ser discutidos, enfrentados, resolvidos, compreendidos, superados. Exaustos, descobrem-se presos numa armadilha de palavras: frases cheias de valor e peso, mas que não oferecem saída. Discursos que giram em torno de um núcleo individual que não foi resolvido, sequer enxergado.

Afinal, o que é um casal? O que significa ser um casal?

Cada um vem de mundos distintos, carregando fardos de uma história de gênero profundamente marcada por violência, simulação, traição, abuso e medo. Muitos de nós sabemos disso. Reconhecemos nossos erros, nossas limitações. Queremos fazer diferente. O problema é que, embora tenhamos absorvido conceitos novos e importantes, o amor que desejamos viver não consegue inaugurar uma nova forma de comunicação, uma nova sintonia real.

Um casal não se forma porque compartilha ideias políticas, gostos culturais ou histórias semelhantes. Nada disso sustenta uma união. Um casal existe porque há entre dois uma comunhão que não é racional — uma ligação que acontece em outro plano. Um plano que precisa existir individualmente antes de ser compartilhado.

Tentar resolver os impasses de uma relação apenas pela razão é acreditar que a conversa, sozinha, dá conta de tudo. Como palavras, mesmo bonitas, poderiam resolver as sombras interiores que cada um ainda não enfrentou em si?

Por isso, as palavras cansam. E se esgotam. E os mesmos conflitos reaparecem, apesar de tantas explicações e boas intenções. Um casal não é feito de palavras. E tampouco se resolve com elas.

Cada um precisa renovar-se interna e individualmente, antes de criar uma relação renovada.
Só então um novo canal de comunicação poderá ser encontrado. E, aos poucos, uma nova identidade relacional será criada.

Homens e mulheres só se definem verdadeiramente juntos, um diante do outro. O eu antigo só consegue enxergar o eu antigo do outro — e vice-versa.

Hoje, muitos de nós já estamos saturados de noções sobre o certo e o errado nas questões de gênero. Falta presença. Falta encarnação. Falta trazer o pensamento para a realidade concreta da vida — algo que só acontece na relação viva com o outro, começando com o outro dentro de nós. Aquele “outro” que não cabe na caixinha das expectativas e que, justamente por isso, pode nos renovar.

Como um homem pode mudar diante de uma mulher se ela não resiste ao velho que insiste em agir dentro dela? Se ela não abre espaço para o novo e para a verdade que emerge nela? E o inverso é igualmente verdadeiro.

Às vezes, como diz poeticamente um antigo sonho, é preciso dar um gelo na palavra. Fazer uma pausa na falação. Colocar o livro na geladeira, para conservá-lo por um tempo. Não porque a palavra não tenha valor, mas porque não somos feitos apenas dela. Precisamos aprender a sentir, a perceber com o coração, a olhar para além da razão. A ouvir o silêncio das estrelas que brilham dentro de nós. Porque elas brilham.

A modernidade exaltou a palavra como se ela nos definisse por completo. Não define. Não somos só linguagem. E não é apenas por meio dela, ainda que verdadeira, que se alcançam paz e harmonia numa relação.

É preciso focar em um novo canal de comunicação — aquele que transcende a palavra. Esse canal é o corpo, não apenas como carne e osso, mas como entidade viva que contém conhecimento e verdade.

Duas mentes em harmonia não podem coexistir se os corpos também não estão em harmonia.

Este é o sentido da dança. Dança como movimento harmonioso. Pode seguir ritmos diferentes, mas mantém a harmonia. É um todo que se move unido em si. Assim deveríamos ser. Assim a palavra deveria ser: expressão harmoniosa do todo que somos — o que inclui o corpo. Sem ele, a palavra se torna essa racionalidade desconectada que tanto conhecemos: bonita, mas ineficaz.

Um casal expressa sua união no movimento harmonioso que a dança simboliza.
É o encontro dos movimentos físicos e sutis, internos e externos, do sentir e do pensar.

A dança representa metaforicamente a sintonia das emoções, dos sentidos, das energias. Quem conhece o prazer da dança sabe: quando dançamos, entramos num patamar onde o entendimento precede a explicação. Um território que ainda não tem nome, porque não nasceu para ser dito.

Porque a razão explica.
Mas é a dança — sentir presente e claro — que une.

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